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A relação entre a operação Carne Fraca e os bancos públicos

Por Assessoria do Mandato da Juliana Donato – CAREF – Banco do Brasil

 

A descoberta do esquema bilionário de fraudes e corrupção, do qual participavam as empresas JBS e BRF, abriu um importante debate na sociedade sobre a política de formação das “campeãs nacionais”, empresas privadas turbinadas com crédito público para competir no mercado nacional e internacional, política realizada durante os mandatos de Lula e Dilma.

Nos governos do PT, o BNDES colocou bilhões em empresas privadas, como o Vale, Odebrecht, grupo X (Eike Batista), Sete Brasil, Oi, JBS, BRF, Grupo Votorantim, entre outras. Em alguns casos, como o da Sete Brasil, as empresas foram criadas a partir de fundos de pensão e financiamento comandados pelos bancos públicos. As fusões e incorporações não aconteceriam sem o financiamento do poder público, como são os exemplos da Oi, BRF e JBS. Todas essas empresas foram as principais financiadoras das campanhas eleitorais dos maiores partidos brasileiros.

O exemplo da JBS é marcante. Em 2005, o BNDES aprovou R$ 287 milhões em empréstimos para a empresa comprar as operações da Swift na Argentina. Quando a JBS vendeu ações em uma oferta pública, em 2007, o BNDES aprovou uma participação de R$ 1,1 bilhão para ajudar a empresa a adquirir a Swift, na época a terceira maior empresa de carne bovina e suína dos EUA. As demais aquisições vieram na sequência, entre elas a da Pilgrim’s Pride, com sede em Pittsburgh (EUA), a da canadense XL Foods e a de quatro processadoras de carne brasileiras. A JBS adquiriu a empresa de lácteos Vigor em 2009, como parte da aquisição do Grupo Bertin SA.

Segundo a UOL, o banco converteu R$ 3,5 bilhões de títulos locais da JBS em ações em 2011. Em uma década, o BNDES aprovou também R$ 6 bilhões em ações e R$ 2,4 bilhões em empréstimos. Nesse montante não está contabilizado o dinheiro repassado pelo Banco do Brasil e pela Caixa Econômica Federal à empresa. O BDNDES tem 21,32% e a CEF tem 4,92% do controle acionário e, por isso, são, depois do acionista controlador, os dois maiores acionistas da JBS.

Todo esse financiamento público, em nenhum momento, foi acompanhado de uma exigência de que a JBS cumprisse minimamente a legislação trabalhista. Ao contrário, uma das fontes do seu crescimento é a superexploração dos seus funcionários. A JBS é recordista do setor em acidentes de trabalho. Apenas entre 2011 a 2014, no setor de abate de bovinos, a empresa registrou 4867 acidentes. No ano de 2014, foram registrados 1427 acidentes. Somente neste 4 anos, a empresa deixou incapacitados 7822 trabalhadores, uma média de 5 acidentes por dia, de acordo com o Ministério da Previdência Social. O trabalhador comum da JBS, que recebe por volta de R$ 1190,00, levará somente um pouco mais de uma hora de trabalho para pagar seu salário.

Na BRF, os números não são diferentes: seu lucro, em 2015, foi 3,1 bilhões de reais e o gasto total com salário foi de 477 milhões. Em 4 anos, seu lucro subiu 71%, enquanto o salário dos funcionários aumentou somente 11%. Em 2012, o trabalhador ficava com 6,7 do excedente da empresa; em 2015, esse número caiu para 4,5%. Tanto a BRF como JBS respondem processos bilionários na Justiça do Trabalho, são inúmeras causas coletivas abertas pelo Ministério Público do Trabalho.

Durante o nosso mandato no CAREF do BB, sempre fomos contra o banco financiar as grandes empresas nacionais, porque não acreditamos que o papel do banco público seja financiar empresas privadas, as quais têm como objetivo central o lucro a qualquer custo.

Não é verdade, por outro lado, que as empresas nacionais investiram no desenvolvimento nacional. Em 2015, no ramo da carne, a maior parte da produção, cerca de 76%, foi vendida “in nature” para o exterior. A JBS, inclusive, está separando sua parte internacional da parte nacional. A sede internacional ficará na Irlanda e já tem 115 mil trabalhadores e 35 bilhões de dólares de receita, enquanto a nacional tem 125 mil trabalhadores e uma receita de 30 bilhões de dólares.

Portanto, a relação dos governos brasileiros com as empresas campeãs nacionais é uma expressão da famosa política do “toma lá, dá cá “, ou seja, dinheiro à vontade para as grandes empresas privadas e milhões de reais para o financiamento de campanhas eleitorais.

O que o banco público deveria fazer é financiar os pequenos produtores, os trabalhadores e as microempresas, além de financiar os setores estatais da economia.

Por que uma empresa que não cumpre a legislação trabalhista do país vai cumprir a regulamentação do mercado de carnes? O escândalo das carnes está mostrando que, além de colocar a saúde dos seus trabalhadores em risco, essas empresas colocam em risco a saúde de toda a população.