c77709d5266bb879fd97e78a5dfae1e1

O USO DO CACHIMBO DEIXA A BOCA TORTA

Por Carlos Cordeiro, ex-presidente da CONTRAF/CUT

 

Para que a CONTRAF/CUT está convocando um Congresso Extraordinário?

O congresso extraordinário da CONTRAF/CUT foi definido pela articulação bancária e as correntes que a apóiam desde o ano passado para fazer uma alteração estatutária com o objetivo de mudar as regras eleitorais.

Não se deixem enganar pelo argumento de que o objetivo do Congresso é discutir a estratégia diante da conjuntura. Aguardem e verão!

A real intenção é excluir os companheiros que pensam diferente deste agrupamento que hoje toma conta da CONTRAF. Este objetivo foi claramente manifestado na reunião da Executiva em Brasília, convocada sem pauta, quando o presidente Beto Von der Osten afirmou que a finalidade é alterar o estatuto, pois, no último congresso, tivemos disputa com duas chapas o que levou ao acionamento da justiça.

No congresso anterior, em 2015, foi alterado o regimento interno para votação aberta no crachá a fim de identificar o voto do delegado, tendo em vista inibir os votos na chapa concorrente. Recurso pelego, nunca utilizado em mais de 30 anos de história dos bancários nos Congressos eleitorais, desde os tempos do Departamento Nacional dos Bancários da CUT (DNB), passando pela Confederação Nacional dos Bancários (CNB) e pela atual CONTRAF/CUT.

Esta prática intimidatória e de assédio foi derrubada na Justiça com uma liminar garantindo o voto secreto. Como resultado, obtivemos 25% dos votos válidos e proporcionalidade na composição da Direção. Apesar da votação, sofremos um golpe, pois fomos impedidos de ocupar os cargos com pastas na Executiva como determina a mesma proporcionalidade no Estatuto da CUT. Todas as secretarias foram distribuídas entre eles.

Como foi aprovada a realização do CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO?

Foram convocadas duas reuniões, ambas sem pauta. As duas reuniões foram muito rápidas, como tem sido de praxe: No dia 24 de novembro, quinta-feira, em Brasília, se reuniu a Executiva, e na segunda feira seguinte, dia 28 de novembro, em São Paulo, se reuniu a Direção Nacional, que conta com os representantes das Federações. Ambas as reuniões começaram depois das onze da manhã e terminaram na hora do almoço. Apesar da gravidade dos ataques aos direitos dos trabalhadores, das demissões e assédio nos bancos, a Executiva e a Direção Nacional dos Bancários se reuniram apenas para cumprir rituais jurídicos e convocar o CONGRESSO EXTRAORDINÁRIO.

A reunião da Direção aprovou a data de 09 e 10 de março para permitir que os dirigentes pudessem participar das atividades do dia 08 de março. Estranhamente, no edital a data do Congresso foi alterada para os dias 08, 09 e 10 de março.

No Sindicato dos Bancários de São Paulo, as matérias da Folha Bancária para convocação da assembleia omitiram que o Congresso fará mudanças estatutárias, o que consta apenas no final do edital. Na sua fala na assembleia, a presidenta do sindicato, Juvândia Moreira, não falou sobre as alterações estatutárias ou fez qualquer referência às mudanças do processo eleitoral do Congresso da CONTRAF/CUT.

Por que me abstive na assembleia de Sindicato dos Bancários de SP no dia 21 de fevereiro?

Por não concordar com esta prática que fere os princípios de ampla participação dos trabalhadores, democracia e respeito às opiniões divergentes, me abstive.

Muitos dirigentes do SEEB São Paulo, e acredito que a maioria dos dirigentes dos demais sindicatos da nossa categoria no Brasil, desconhecem que este Congresso mudará as regras eleitorais. Não sabem, por que isto está sendo escondido desde o ano passado. Estão sendo enganados, pois com certeza não concordam com essa prática que em nada perde para os pelegos, golpistas e para a direita que dizem combater.

Por que querem excluir quem pensa diferente?

Alguns dirigentes da Articulação Sindical vêm atuado diretamente para excluir do movimento sindical companheiros de luta que pensam diferente. Pelo Brasil todo, são dirigentes que sempre se mobilizaram para defender os direitos dos trabalhadores, mesmo quando isso tem exigido enfrentamento interno e disputa de posições. Como aconteceu durante o processo de discussão da terceirização na Câmara do Deputados, com o PL 4330, ou ainda no debate sobre o ACE (Acordo Coletivo Especial) e o PPE, que tratam do negociado sobre o legislado e dividem posicionamento interno na CUT.

Embora esses problemas de desconstrução da prática democrática estejam sendo encaminhados à Articulação Sindical desde 2015 e tenham sido pautados em várias das plenárias da ARTSIND que aconteceram no ano passado (Manaus, Campo Grande e Florianópolis), o debate interno vem sendo repetidamente negligenciado.

Faço um apelo a todos os dirigentes sindicais para que não abram mão dos seus princípios e continuem lutando em defesa da democracia. Não aceitem pressões e assédio de dirigentes sindicais e continuem lutando para que nossos sindicatos, nossas federações e nossa confederação sejam espaços democráticos, solidários e de luta, comprometidos com a defesa dos interesses dos trabalhadores.

Debatam nos seus sindicatos, com a base e garantam espaço para que as pessoas que pensam diferente possam se manifestar.

Não deixem que o uso do cachimbo faça a boca torta.

Saudações sindicais, democráticas e de luta!