AssedioMoral

SOBRE ASSÉDIO MORAL, MISOGINIA E REFORMA DA PREVIDÊNCIA

Por Fátima Dias, bancária aposentada do Banco do Brasil

O leitor deve estar se perguntando o que esses temas tem a ver um com o outro. Mas, se prestarmos atenção à rotina de muitas empresas, inclusive o Banco do Brasil, esses temas se articulam! Primeiro, porque as mulheres continuam sendo as maiores vítimas do assédio moral, especialmente daquele tipo de assédio machista e de falsa moral, onde elas sofrem humilhações referentes à sua idade e ao seu estilo de vida. Se ela for uma mulher independente, ativa e com alto senso crítico relativo às injustiças no trabalho, sempre tem alguém a quem o banco delega poder e confiança, que cumpre o nefasto papel de persegui-la! E, se depender da direção do banco, não acontece nada.

Anteriormente, escrevi neste site sobre o caso da Letícia Ribeiro. Agora, estou escrevendo sobre outra colega, a Romilda, que foi assediada pelo mesmo gerente, de maio de 2014 até agosto de 2015, quando ela, então, aderiu ao PAI. Isso mostra que, como nenhuma medida foi tomada pelo banco, o mesmo assediador continuou com sua prática abusiva!

Romilda trabalhava há sete anos no PAB Fórum Carapicuíba, onde havia anteriormente duas funcionárias para atender uma alta demanda de serviços e um razoável número de clientes. Em 2014, porém, o gestor tirou a outra funcionária e deixou Romilda sozinha, sem tempo de alimentar-se ou ir ao banheiro. Foi nessa situação que, no final de maio de 2014, Romilda passou mal na frente dos clientes, que se mostraram indignados com as péssimas condições de trabalho! E foram esses clientes que estavam na fila, entre eles um médico, que lhe prestaram solidariedade e exigiram do gerente que fosse colocado mais um funcionário no atendimento. Em resposta a isso, o gerente simplesmente a transferiu para a agência principal da cidade! No entanto, por ser uma funcionária atenciosa e eficiente, portanto muito querida, os clientes, entre eles pessoas influentes, cobraram do banco a sua volta ao PAB. Isso provocou uma decisão inusitada por parte do banco: a colega passou a trabalhar de 10h00 às 13h00 na agência maior e o restante do período no PAB, que ficava a mais de um quilômetro da agência! Obviamente, o desgaste físico e psicológico se agravou e a funcionária acabou adoecendo e tendo que se afastar. No entanto, ao retornar ao trabalho, o assédio aumentou!

Infelizmente, esse tipo de situação é comum no banco. Gestores sem nenhum preparo perseguindo trabalhadoras que adoecem por motivos causados pelas próprias condições de trabalho, o que alimenta um círculo cruel e vicioso em que, quanto mais prejudicada, mais a pessoa adoece e, quanto mais adoece, mais é perseguida! Isso aconteceu com a Letícia, em 2013, e passou a acontecer com Romilda, em 2014, que acabou se desligando do banco no final de julho de 2015, por não suportar mais tanta humilhação! O gerente, por conhecê-la há mais de 20 anos, quando já haviam trabalhado na mesma agência, passou a comentar detalhes de sua vida pessoal dentro de uma ótica moralista e machista, com insinuações ofensivas. Mais uma vez, porém, esse gerente escolheu como vítima uma mulher lutadora que resolveu não se calar!

Assim, em maio de 2015, Romilda procurou o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), uma atitude digna e corajosa de combate às injustiças que haviam ocorrido consigo, com Letícia e, possivelmente, com outras que não tiveram coragem de denunciar! Ao contrário do que havia feito a GEPES Campinas, o MTE apurou de forma imparcial, ouvindo as diversas partes envolvidas e constatou as denúncias de assédio e discriminação, além de descaso de itens básicos referentes à saúde, segurança e bem-estar dos funcionários! Com isso, o banco recebeu uma importante notificação, na qual o referido gerente é citado como machista e misógino.

Um detalhe importante em que entra a relação com o terceiro tema do título desse artigo – a Reforma da Previdência – é que Romilda conseguiu se aposentar de forma digna, embora até quisesse permanecer mais um tempo no banco, uma vez que a condição financeira de aposentada é sempre bem inferior à da ativa. Mas, futuramente, se a Reforma da Previdência passar e o assédio não for erradicado do ambiente de trabalho (o que é pouco provável), pessoas como ela passarão o final de suas vidas numa jornada de humilhações e adoecimentos!

Vale lembrar também que, além das características misóginas, o assédio moral é bastante frequente contra funcionárias com mais de 50 anos, quando muitas vezes estas já não têm a mesma agilidade no aprendizado de informática que os mais jovens! E, para piorar, devido à política de retirada de direitos nos contratos mais recentes, do congelamento de salários por quase uma década e dos salários de ingressos cada vez menores, funcionários mais antigos ficam mal vistos por alguns gestores e colegas desatentos a essas questões somente porque ganham um salário mais digno! Assim, lamentavelmente, ao invés de lutarem por isonomia e equiparação salarial, algumas pessoas preferem discriminar funcionárias ou funcionários mais antigos, que são testemunhas vivas do quanto as condições de trabalho pioraram! Mas, com as reestruturações atingindo um número cada vez maior de funcionários, algumas dessas pessoas já estão revendo suas posições.

Mas, nos casos que relatamos, chama-nos atenção que gerentes com práticas de assédio moral tão cruéis e covardes contra mulheres possam continuar repetindo esse comportamento com aval do banco! Isso inclusive nos leva a pensar em assédio moral como forma de gestão, em pleno século XXI! Esse tipo de assédio direcionado por gênero e idade é, na verdade, uma forma de opressão que, no sistema capitalista, serve para aumentar a exploração!

É importante refletir também que a ânsia de lucros e de estar à frente na concorrência faz com que o banco e as empresas, em geral, achatem cada vez mais os salários. Os mais jovens, que recebem salários mais baixos, daqui a uma ou duas décadas, estarão trabalhando com colegas mais jovens que receberão salários ainda piores ou com jovens colegas que sequer possuem as mesmas garantias trabalhistas, se esta lógica continuar! E aqui também é bom lembrar que, além da Reforma da Previdência, o governo federal quer votar a PEC da Terceirização e a Reforma Trabalhista, que podem, de fato, acabar com as garantias da CLT, deixando direitos históricos à mercê de negociações com o sindicato.

Por tudo isso, são necessárias organização e luta contra a precarização, contra o assédio e contra toda e qualquer forma de discriminação! E nisso muitas mulheres têm se destacado, o que incomoda especialmente aqueles gerentes mais machistas ou, infelizmente, até mesmo gerentes mulheres, que reproduzem o machismo, seja de forma inconsciente ou como arma para se manter em seu cargo, fazendo o jogo da empresa!

Assim, mulheres e homens, mais velhos ou ainda jovens, estamos todos numa situação muito semelhante, sujeitos aos mesmos ataques, pois o que atinge a algumas ou alguns pode atingir a todos! É sempre melhor combater esses ataques de forma coletiva e organizada do que tentar se salvar individualmente, porque ninguém fica salvo por muito tempo na atual conjuntura! E se as conquistas coletivas podem ser desmontadas, como querem os governantes e banqueiros, que dizer das conquistas individuais então? Por não termos o dinheiro dos banqueiros nem o poder burocrático dos governos, só nos restam como armas a solidariedade e a luta organizada!